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O escândalo das licitações de merenda escolar em São Cristóvão e Nossa Senhora do Socorro fez com que o Brasil inteiro arregalasse os olhos para o pequeno estado de Sergipe. Os nomes de empresários e políticos envolvidos no esquema de corrupção e fraude foram espalhados aos quatro ventos dando vazão a diversos comentários populares e da imprensa sergipana como um todo.

Essa ultima, que na maioria do tempo e por interesses nunca revelados, parace fechar os olhos e se fingir de morta. Por outro lado, é bom saber que sempre tem alguém com um ponto de vista diferenciado servindo como uma terceira via de esclarecimento onde tudo que se mostra límpido neste momento são dois lados contendo alguns certos e muitos errados.

Nesse caminho, listamos a Consultoria Popular, um movimento que a cada semana faz um balanço em forma de editorial da conjuntura politica, econômica e social no estado de Sergipe. Nesta semana o assunto é “As Lições da Merenda Roubada”, um belo texto que apartir de agora, poderá ser lido na integra na transcrição abaixo.

As Lições da Merenda Roubada …

Sergipe é um estado onde, costumeiramente, cultivam-se folclores da classe dominante, ainda que tenhamos riquezas valorosíssimas entre os dominados. É nesse canto do nordeste brasileiro que se difundiram verdadeiras lendas urbanas de como nasceram impérios e, talvez, essa seja a razão de parecer tão natural que um ladrão de origem pobre torne-se rico, influente e poderoso.

Duas lendas que muito se propagam é a do humilde bodegueiro que, a partir de uma mercearia em Aracaju, formou uma importante rede de supermercados do nordeste brasileiro e, a outra, de um mercador de fumo que fazendo negócios entre Sergipe e Maranhão construiu uma empresa multifacetária com diversas plantas industriais. A história do enriquecimento é simplificada e o papel social que cada uma dessas empresas cumprem, atualmente, é ignorado. No entanto, não custa esclarecer que aquela bodega, hoje, é parte de um oligopólio transnacional que trata o alimento como mercadoria. Já a empresa do mercador de fumo, escraviza trabalhadores rurais no Maranhão. De tão ricos, hoje suas práticas ficam incontestes, ainda que tenham sua origem bem humilde.

A notícia da quadrilha da merenda que estava sendo capitaneada pela empresa Gama, de propriedade de Everaldo Gama, caminhava nessa mesma estrada.  Era um homem simples que estava construindo um império em conluio com a nata coalhada dos políticos sergipanos: uma vergonha nacional que expôs para todos a sórdida maneira de desvio de recursos da alimentação escolar. Caso não tivesse vindo à tona, talvez dentro de mais alguns anos poderíamos estar tratando o Sr. Everaldo Gama com todas as honrarias de um grande sergipano que prestou muitos serviços ao nosso estado.

A denúncia da merenda também escancarou que tipo de alimentos são fornecidos nas escolas sergipanas e que tipo de indústria é favorecida. A indústria dos alimentos acaba usando a alimentação escolar como um nicho de mercado que absorve sua comida ultraprocessada, altamente calórica e com poucas características nutricionais positivas. Foi demonstrado o fornecimento de rosquinhas, achocolatados, pão branco industrializado e carnes, enfim, produtos oriundos de uma indústria que produz em larga escala e que enxerga a alimentação escolar como uma forma de se manter viva e praticamente dependente desse mercado consumidor.

A Lei no. 11.947/2009 define que no mínimo 30% (trinta por cento) dos recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), no âmbito do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), devem ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas. Essa é uma lei que combate o paradigma dessa indústria de alimentos que favorece a jogatina e estimula a organização das diversas identidades camponesas que estão presentes no campo sergipano.

É importante também cobrar do governo do estado o cumprimento dessa lei, porque dentre as imagens veiculadas na denúncia quase não se via produtos com características da agricultura camponesa. A denúncia da merenda serve para nos alertar que, caso estivéssemos associados a uma organização camponesa, poderíamos desenvolver e fornecer alimentos com muita identidade aos nossos estudantes. Por exemplo, se houvesse uma organização que apoiasse o coletivo de mulheres marisqueiras do povoado Pedreiras em São Cristóvão, as crianças poderiam comer na merenda o catado de aratu que o repórter desconhecia, mas que as crianças com certeza identificariam o valor do trabalho de seus pais.

Com o PNAE temos que pensar a possibilidade de combater a corrupção, mas principalmente fortalecer a organização dos trabalhadores do campo. A ideia não é fazer disso um negócio de poucas cooperativas e sim algo que favoreça o real desenvolvimento do campo sergipano. Quantas são as possibilidades que deixamos de incentivar em nosso meio rural sergipano e que carregam uma essência mais rica que os alimentos industrializados que dominam a merenda escolar de nossos estudantes? Como seria se pudéssemos organizar os camponeses que produzem umbu, mangaba, araticum, araçá, macaxeira, aratu, pescado etc.?

A denúncia da corrupção na alimentação escolar não pode somente se encarregar de substituir os malfeitores por empresários honestos. É imperioso oportunizar a reflexão sobre a origem desses alimentos e quem termina sendo favorecido nessas negociatas, além de reconhecer o pouco que vem sendo feito para encher de entusiasmo os que fazem do campo o seu lugar de trabalho, cultura e vida.

Info: Consulta Popular Sergipe