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A história sergipana é a história do Brasil, em Sergipe. Com adaptações, essa frase é de Ariosvaldo Figueiredo, autor da coleção “História Política de Sergipe”. Nesse sentido, dois fatos relevantes nas últimas semanas expressam, em Sergipe, a atualidade das crises política, econômica e social do Brasil: a prisão do ex-deputado estadual Mundinho da Comase a partir de denúncias sobre repasses das subvenções, e o parcelamento, pelo governo do Estado, dos salários dos servidores públicos.

LAVA JATOFala-se que o escândalo das subvenções – referente a diversas investigações que apontam indícios fortes de corrupção no repasse das verbas pelos deputados estaduais – seria a Operação Lava-jato de Sergipe. Não é para tanto. As diferenças são inúmeras, desde as matérias abordadas até os atores envolvidos. Entretanto, de fato, ambas as situações revelam ainda mais a podridão do sistema político – no qual o financiamento empresarial de campanha necessariamente convive com a corrupção –, e, ainda, fazem aparecer dois aspectos atuais da política: a criminalização e o papel da imprensa.

Sem dúvidas, a Lava-jato cumpre o papel político de criminalizar o PT, com a orquestração do Partido da Imprensa Golpista, como bem conceitua o jornalista Paulo Henrique Amorim. Essa é uma constatação objetiva e não depende da análise que se faz da validade jurídica da investigação. Afinal, dentre várias denúncias – muitas vezes até sem provas –, o que se evidencia na mídia são os elementos capazes de atingir o PT, especialmente Dilma e Lula, na tentativa de aprofundar a crise política.

Por sua vez, o caso das subvenções não cumpre o mesmo papel político criminalizador e, não por acaso, tem tímida cobertura da mídia sergipana. Na questão política de Sergipe, a grande mídia não se presta ao espetáculo que faz nacionalmente. Em rápida análise, suscitam-se três razões dessa cobertura: por serem diminutas as acusações de envolvimento de parlamentares petistas no escândalo; por ser já residual a importância do partido na coalização do governo; e, sobretudo, por não mais ameaçar romper, num futuro próximo, o revezamento entre oligarquias e dissidências oligárquicas. O incômodo de algumas frações da burguesia com o PT em âmbito nacional já não se replica na mesma proporção em Sergipe.

Curioso é saber que os denunciados no caso das subvenções são aliados dos Amorins e do deputado federal André Moura (PSC), arauto da moralidade contra o PT. Considerando que a família Franco e os Amorins são os latifundiários da grande mídia sergipana, muito bem articulados nas eleições de 2014, torna-se mais fácil entender porque os juízes Escrivani Stefaniu (TRE-SE), Aldo de Albuquerque Mello (TJ-SE) e Marcel Maia Montalvão (TJ-SE) não se tornarão mártires de Sergipe como se quer fazer com o juiz Sérgio Moro (TRF-PR-4ª Região) em âmbito nacional. Tampouco a procuradora Eunice Dantas (MPF-SE) e o promotor Henrique Ribeiro Cardoso (MP-SE) terão a atenção midiática que tem Deltan Dallagnol (MPF-PR).

Tanto na Lava-jato quanto no caso das subvenções, criminaliza-se ou descriminaliza-se por conveniência da mídia e dos interesses político-econômicos que lhe move. Esse é um elemento importantíssimo de nossa crise política, que até explica porque qualquer petista parece ser mais repugnante que Adelson Barreto, Augusto Bezerra (DEM), Capitão Samuel (PSL), Gilson Andrade (PTC), Gustinho Ribeiro (PSD), Jefferson Andrade (PSD), Paulinho das Varzinhas (PT do B), Luiz Mitidieri (PSD), Maria Mendonça (PP), Venâncio Fonseca (PP) e Zezinho Guimarães (PMDB), todos envolvidos no caso das subvenções.

Não bastasse a questão política, em Sergipe também se apresentam os reflexos da crise econômica. A quantidade de empregos formais no Estado teve redução de 2,33% em 2015, queda maior que a estatística nacional, de -1,20%, segundo o CAGED/MTE. Além do desemprego, a classe trabalhadora sergipana ainda amarga o ônus de suportar a decisão do governo Jackson Barreto de parcelar os salários dos servidores públicos, inclusive com a sinalização de que essa pode ser uma prática a se repetir nos próximos meses. Em importante contraponto, o SINDIFISCO-SE apresentou a denúncia precisa: há consideráveis isenções fiscais às empresas, além da omissão estatal quanto à cobrança dos devedores. Ou seja, é a conjunção de decisão político-econômica conservadora, com direta consequência social, aprofundando as desigualdades.

Nesse contexto, diversos movimentos sociais – como o MST, MOTU e Levante Popular da Juventude – e centrais sindicais – a exemplo da CUT e CTB – e sindicatos foram às ruas no último dia 20, com mais de 6 mil sergipanos, para defender a democracia e impedir que a conta da crise recaia sobre os trabalhadores.

Como disse Ariosvaldo, “o povo, não só em Sergipe, não é Poder”, apesar de ter ocupado alguns espaços do Legislativo e Executivo. Portanto, impedir a ofensiva neoliberal midiática exige a retomada das lutas sociais massivas e o fortalecimento das organizações de base – associações de bairros, sindicatos, grêmios escolares, grupos religiosos, etc – para compatibilizar as demandas individuais dos trabalhadores com um projeto político que, além de governo, tenha no poder popular sua meta maior.

INFO: Consulta Popular Sergipe