É fora do quadrado organizado por Pirro que a bela capital Aracaju se reproduz e repete sua história de fundação, separando bem os pobres descendentes de escravos dos ricos brancos, que ainda são herdeiros dessas terras de especulação. Quem ousou ocupá-las e reivindicá-las, acabou sendo duramente expulso, vide o episódio mais recente das famílias do Casarão do Parque no centro. Essa forma de agir dos poderes constituídos, no tocante às ocupações urbanas, se repete da mesma maneira nos municípios da grande Aracaju.

MCMVDos despejos ocorridos, o mais emblemático e chocante foi o da Cabrita, onde quase 100 famílias que ali viviam há mais de vinte anos perderam tudo. Uma terra que pertence ao Estado, mas que particulares alegam propriedade e são favorecidos por ordens judiciais. Nos autos do processo, papeladas bastante suspeitas de antigos “donos”. Para as famílias que ali moravam, resta o acampamento na beira da pista e a memória de suas roças e casas construídas ao longo do tempo com muito trabalho.

A maioria dos habitantes de Sergipe reside em áreas urbanas (73,5%), e Aracaju é a cidade mais populosa do estado com 571.149 habitantes. As terras mais caras se encontram em torno das cidades. Não é difícil entender a raiz desses conflitos: o interesse do setor imobiliário nessas terras, o lucro com os altos preços do aluguel, o financiamento de eleições promovido pelas construtoras e o posicionamento conservador histórico do judiciário, tenta a todo custo impedir o avanço dos movimentos sociais e as intervenções na pauta da moradia.

Para esses, é muita ousadia o pobre querer morar no centro, nas proximidades da 13 de Julho ou na atalaia, resta aos trabalhadores morar longe, trabalhar para manter a cidade e não usufruir das vantagens que esse espaço pode dar. Segundo o Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos (MOTU), o impacto no aluguel do salário mínimo é o motivo central da massificação das ocupações urbanas e faz crescer a demanda de construções de habitações populares no estado.

No entanto, quando um conjunto habitacional popular é construído, a falta de planejamento no tocante aos aparelhos urbanos – como posto de saúde e escola – acabam ficando de lado e muitas vezes, por incrível que pareça, falta infraestrutura como drenagem, esgoto e pavimentação. Assim, assistimos as famílias que já foram beneficiadas em projetos perderem tudo por conta da chuva, a exemplo do que aconteceu em decorrência das últimas chuvas no bairro 17 de março.

Os problemas dessas comunidades não afetam a elite política sergipana, pois Aracaju sempre escondeu bem os problemas sociais: “aqui não se vê favela!” é uma expressão repetida pelos turistas que visitam a nossa capital. Afinal de contas, a burguesia não pode ver a pobreza, não pode ver o sufoco dos trabalhadores com a falta de saneamento básico, com o transporte público de péssima qualidade. O problema da cidade é de todos, demora a chegar na classe média, mas chega, chega na forma da violência, dos engarrafamentos, das enchentes.

No dia nacional de luta por moradia, os movimentos sociais fizeram uma bonita caminhada e foram recebidos pelos órgãos competentes. É preciso que se construa espaços de relação entre governo e sociedade, fingir que não viu e deixar a justiça resolver os problemas do povo é se calar para o que já se sabe que vai acontecer.

Vem-se acumulando demandas para o governo que, até hoje, não saíram do papel. O traumático despejo das famílias do acampamento 1° Maio em 2008, no início de um governo apoiado pela esquerda, não fez os movimentos serem respeitados como organização pelas autoridades. A falta de apoio de governos e o silêncio frente a reivindicações, apesar dos vários ofícios, atos e reivindicações, teve como consequência o fortalecimento da posição da justiça a favor dos empresários e uma costumeira truculência e desproporcional intervenção da polícia militar.

No mês de Maio, todas as ocupações da grande Aracaju foram notificadas judicialmente, algumas já foram despejadas. Onde vão morar esses trabalhadores com suas famílias?  O que a justiça desse país tem a oferecer a não ser ordem de despejo? Se as terras que estamos são públicas, por que são expulsos por particulares?  Todos esses fatos evidenciam clara relação entre a especulação imobiliária, o judiciário e os gestores públicos dos municípios da grande Aracaju, que não se posicionam mediante os acontecimentos e nem querem saber. Nas próximas eleições, quem sabe!

INFO: C. P. Sergipe