Que tipo de escola é essa que é feita todo dia, quando achamos normal ou com potencial menos ofensivo quando um xingamento ou uma ofensa é feita em grupo. Naturalmente, o estádio de futebol é um espaço democrático e traz consigo um sentimento de liberdade de expressão que, durante anos, foi usado até para expulsar os demônios da ditadura e outras limitações. Mas a verdade é que hoje ele é apenas um retrato de uma sociedade que ainda não aprendeu nada sobre evolução social e que não sabe separar liberdade de libertinagem. É o ranço de nossa essência, um tanto quanto difícil de entender onde começa.

INJURIASEssa sociedade que xinga um goleiro de macaco, é a mesma que não pune agressores de torcidas organizadas, por exemplo. Saindo da esfera esportiva, é o mesmo indivíduo que não compreende as diferenças e agride sem qualquer motivo, um homossexual ou um par de outra religião. Às vezes até a religião é suporte de tamanha disparidade social, promovendo charlatanismo e atos irresponsáveis. Terrível é pensar que essa sociedade que se traveste de rigor na hora de julgar uma profissional do sexo e jogá-la ao relento, por meio de um julgamento revel, é a mesma que na hora da necessidade, usa do anonimato do individualismo para realizar suas fantasias e suprir passíveis necessidades mais instintivas. Ainda bem que existem pessoas que pensam no todo, mas é tão raro e sempre foi.

A verdade é que há muitos anos e momentos enfrentamos aqui no Brasil situações paradoxais em sua essência que repousam na conformidade do pressuposto de que todo brasileiro é assim mesmo. Se formos mais longe um pouco, nossa República é fomentada no golpe, na sujeira. Que conhece minimamente história sabe a trapaça que o grande D. Pedro II sofreu. Vindo pela história, apenas citando os últimos 150 anos de história, vamos ver desapropriações em massa de minorias sem posses, verdadeiras injúrias de raça, condição em busca de um propósito que ninguém nunca soube explicar.

É um verdadeiro “vamos pra frente que atrás vem gente” e que no fundo surtem o mesmo efeito devastador na memória e na história. Se outrora tínhamos pessoas resignadas pela sua condição vendo o mundo desabar sobre suas costas, vemos um país totalmente incluso no mundo, agindo com seus próprios frutos de uma forma tão, digamos, “primitiva”. Pessoas sendo tratadas como indigentes ainda em vida. Uma lástima como aconteceu em São Paulo e Rio de Janeiro, no início do século para a chegada das grandes evoluções. A sociedade de massa brasileira sempre sofreu com a irresponsabilidade contida em cada um de nós. Não adianta pensarmos que o jogador negro detém patrimônio se eles ainda não conseguem a dignidade do dia a dia.

Somos vítimas de nossa própria loucura. É uma sociedade baseada em disse me disse, em acusações sem prova, em injúrias e atitudes caluniosas e abordagens fraudulentas. Hoje brigamos por igualdade, por uma sociedade justa e sem corrupção, mas se nosso documento IPVA estiver atrasado, poucos serão aqueles que vão aceitar perder seu bem até acertar as pendências. Ao falar de tantos assuntos, parece há fuga do tema, parece que há um texto raso que fala e nada explica. Mas a verdade é que precisamos refletir a recorrência dos fatos. Não há como preservar a uma história de erros e desconstrução se a busca é por um futuro diferente. Que nossa escola seja a das boas lembranças e não de uma noite de esporte sendo manchada pelo nosso costume de achar tudo normal.

há como preservar a uma história de erros e desconstrução se a busca é por um futuro diferente. Que nossa escola seja a das boas lembranças e não de uma noite de esporte sendo manchada pelo nosso costume de achar tudo normal.