A morte do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da TV Bandeirantes de São Paulo, ao tempo em que torna desnudo o clima de violência geral que vivemos me leva a matutar sobre dois aspectos ligados a este mesmo clima de violência: a promoção da violência por parte dos meios de comunicação, muito além dos filmes violentos, logo, leia-se, os chamados programas policiais; e as estatísticas com números que só fazem crescer desde 1980.

O Datasus tem disposto na internet toda a sua numeralha, inclusive as estatísticas sobre mortes violentas e, especificamente, assassinatos. É impressionante o salto no número de assassinatos em todo o país a partir da década de 80, quando são removidas todas as amarras nos meios de comunicação, e aparece uma torrente de “programas policiais”, no rádio e na TV. E aí eu me lembro de Adalberto de Pombinho.

cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da TV Bandeirantes de São Paulo que teve morte encefálica após ser atingido por um morteiro durante um protesto no Rio

Por volta de 1980, a Rádio Princesa da Serra, primeira emissora de rádio de Itabaiana, Sergipe; e segunda no interior do estado, andava de vento em popa, com a audiência lá em cima. Aproveitando essa popularidade, e querendo acrescentar ainda mais, um colega radialista criou e colocou no ar um programa policial. Ora, o município de Itabaiana cravara, em 1980, 52.596 habitantes, tendo em toda a sua região de influência com 15 municípios, 179.126 habitantes. Tudo de lugares pequenos, pacatos, pessoas ordeiras, ainda em sua maioria de dois terços, de população rural. Como iria ter matéria policial pra encher uma hora de programa diário? E como justificar aos mais de dez patrocinadores, que o programa não tinha audiência por falta de matéria-prima?

Existiam na cidade figurinhas carimbadas; conhecidas. Uns, mãos de visgo, que volta e meia estava hospedados nas nada confortáveis celas da velha delegacia na esquina da Rua Antônio Dultra com Capitão Mendes, que deixou de existir por volta de 1986; outros, baderneiros, que aprontavam a cada beberagem mais forte, e quase sempre iam também dormir no hotel policial. Mas, pouquíssima coisa de grave. Assassinatos? Só por conta de lavagem da honra pelas pontas recebidas; alguma teima mais vigorosa, iniciada por paixões políticas ou mesmo futebolísticas, muito raro. Em 1980, houve 4 assassinatos no município de Itabaiana e 10 em toda a região, número potencializado por quatro casos ocorridos naquele ano no município de Carira, em geral, por brigas entre famílias. Nada de bandidagem. Se for levar em conta o que preconiza a Organização Mundial de Saúde, que dá como aceitáveis, 5 assassinatos por cem mil habitantes, foi um número muito alto, com Itabaiana quase chegando aos 8 por 100 mil, e toda a região, de 6 por 100 mil.

O programa foi ao ar, não me recordo em que mês e logo o colega se fixou num personagem que ficou conhecido na região como Adalberto de Pombinho. Não lhe conheço o nome de registro, mas era assim reconhecido. Todo dia tinha uma história: Adalberto de Pombinho fez isso; Adalberto de Pombinho fez aquilo; e o Adalberto resolveu usar de sua condição de superstar, e realmente entrar pro mundo do crime. Aprontou várias, mas uma que ficou gravada na minha memória foi-me contada por um senhor dono de um restaurante, que também prestava outro tipo de serviço regular. Certo dia, no auge de seu estrelato, o Adalberto adentro o recinto, e todas as pessoas de bem bateram em retirada; exceto o proprietário que se encontrava presente e duas trêmulas funcionárias, uma das quais lhe foi atender, além, claro, do pessoal da cozinha. Pediu o almoço que lhe foi servido. Tempos depois, chama a empregada, chegou até perto do “maior herói da bandidagem de todos os tempos” e recebeu a ordem: “chame seu patrão”. A coitadinha retornou ao balcão de onde viera e deu o recado. Morrendo de medo. Mas o patrão, osso duro de roer, na maior tranquilidade pra lá botou-se. Ao chegar em frente à mesa foi logo perguntando: “diga, seu porra, que diabos é que você quer?” com um revólver em cada mão, ao nível do tampo da mesa, o Adalberto apontou pra ele e perguntou: “você quer receber com esse, ou com esse?”, alternando leve movimento com as duas armas. O dono do restaurante olhou-o firme e disparou: “guarda tuas porras e se manda daqui que eu sei que você não tem dinheiro pra pagar mesmo!” O superbandido criado pelo meu colega levantou-se e foi embora. Alguns meses depois, convencido de que realmente era um bandido de primeira linhagem foi abatido num tiroteio em Feira de Santana, aí, sim, coisa pra valer, deixando órfãos e viúvas, já que também bastante namorador.

Bandido pé de chinelo ou mesmo médios, adoram estar na mídia a toda hora. E são justamente estes que mais causam danos e mais recebem influência dos programas de rádio e TV que os encoraja.

O caso do Santiago, em que pese parecer ser diferente, mas tem tudo a ver com a banalização da violência que tem sido promovida pelos meios de comunicação, que, em princípio, são meios também de educação social.