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Tristeza e revolta comoveram Aracaju, no dia 24 de junho, na empresa de telemarketing Almaviva, onde a trabalhadora Bárbara Monique passou mal e faleceu. Colegas de trabalho afirmam que ao identificarem a convulsão, tentaram reanima-la, sem êxito. A enfermaria da empresa estava fechada, sem profissional para atender.

ALMAVIVAPara quem tem entre 18 e 28 anos de idade, mora em Aracaju e não pertence à elite sergipana, sem sombra de dúvidas conhece alguém que trabalhe ou trabalhou na empresa. Assédio moral, perseguição, péssimas condições de trabalho são as regras para quem trabalha na Almaviva.

Não é exclusividade da capital sergipana o modus operandi da empresa Almaviva. Em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Maceió, Teresina, Brasília e São Paulo, as denúncias são as mesmas. Basta o leitor buscar na internet “denúncias Almaviva” que inúmeras notícias com casos de abusos contra os trabalhadores em todo o país aparecerão na tela.

Para se instalar nessas diversas cidades brasileiras, a multinacional contou com isenções e reduções fiscais (Como exemplo: IPTU, ISS, além de cessão de estruturas físicas). Por esta razão, o poder público tem uma cobrança dupla com a qualidade do trato trabalhista.

É importante registrar que a Almaviva tem como característica central a atuação no ramo da terceirização de serviços de atendimento aos clientes de outras empresas. Aqui em Aracaju, a unidade da Almaviva presta serviços a Claro e a NET. Buscando otimizar seus lucros, a Claro e a NET terceirizam seus serviços de atendimento aos clientes em detrimento de baixíssimos salários, metas e intensificação do trabalho e pouco ou nenhum investimento em melhoria das condições de trabalho.

Através deste exemplo podemos ver na prática como o grande embate em torno da lei da terceirização (PL 4.330/2004), ocorrido na câmara dos deputados neste primeiro semestre, ataca a rotina dos trabalhadores. O atual presidente da câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), é o grande símbolo desta ofensiva orquestrada entre o poder público e os seus empresários financiadores na busca pelo alargamento dos lucros sobre as costas dos trabalhadores. Como sabemos o projeto já foi aprovado entre a maioria dos deputados e agora segue para o senado. Entre os sergipanos fomos traídos pelos deputados Adelson Barreto (PTB), André Moura (PSC), Fábio Mitidieri (PSD), Fábio Reis (PMDB) e Laércio Oliveira (SD); este último, cujo partido carrega a ironia de chamar-se Solidariedade, é dono da empresa de serviços Multiserv e, portanto, é beneficiário direto da lei.

Atualmente, a juventude trabalhadora enfrenta dois grandes dilemas nos postos de trabalho: o primeiro, a péssima condição de trabalho; o segundo, a alta taxa de rotatividade empregatícia. A relação entre os dois é umbilical. Pela necessidade do emprego e a possibilidade iminente do desemprego, aceitam-se condições de trabalho como as que a Almaviva oferece.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego entre os jovens de 15-24 anos foi de 16,3% em 2011, enquanto as taxas observadas para as idades de 25-49 e 50 anos e mais foram de 5,7% e 2,8%, respectivamente, no mesmo ano.

Além disso, no relatório divulgado em 2014 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) com dados de 2011, a taxa de desemprego juvenil está acima de 25% considerando somente setores de menor renda, mas fica abaixo de 10% para os de maior renda.

Nos últimos anos em Aracaju, no 1º de maio, dia do trabalhador, diversas centrais sindicais e movimentos sociais realizaram atos em frente à empresa de telemarketing, denunciando os abusos de tal empresa. Durantes os atos, vários foram os trabalhadores e trabalhadoras, todos jovens, que, ao terminarem o expediente, relataram os inúmeros problemas enfrentados; assédios devido às cobranças por metas abusivas (quantidade de atendimentos por hora trabalhada), a restrição de idas ao banheiro e ausência de intervalo para descanso eram os mais citados. Diante disso já é possível o estado rever as isenções dispensadas e a empresa responder juridicamente, além de indenizar seus trabalhadores pelos crimes praticados

Esse é o nosso presente. No nosso futuro não cabe mais flexibilização de direitos, terceirizações, assédio moral, enfim, a precarização. O jovem precisa de educação e garantia de emprego digno para poder pagar as contas da casa e viver bem. Porém, somente a luta e a organização dos trabalhadores podem fazer avançar na melhoria das condições de trabalho.

Por: Popular Sergipe